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    5/29/2007

    Via Láctea - Olavo Bilac

     
     
    Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
    Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
    Que, para ouvi-las, muita vez desperto
    E abro as janelas, pálido de espanto...

    E conversamos toda a noite, enquanto
    A via láctea, como um pálio aberto,
    Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
    Inda as procuro pelo céu deserto.

    Direis agora! "Tresloucado amigo!
    Que conversas com elas? Que sentido
    Tem o que dizem, quando estão contigo?"

    E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas".
    5/27/2007

    Carta de Despedida - Gabriel Garcia Márquez

    “Se por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso mas pensaria tudo o que digo.  

    Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.

    Dormiria pouco, sonharia mais, porque entendo que por cada minuto que fechamos os olhos perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os outros param, acordaria quando os outros dormem. Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria um bom gelado de chocolate !

    Se Deus me oferecesse um pouco de vida,

    vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também  a minha alma.

    Meu Deus,

    se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperava que nascesse o sol.

    Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas de um poema de Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que eu ofereceria à Lua!

    Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas...

    Meu Deus, se eu tivesse um pouco de vida... não deixaria passar um só instante sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.  

    Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo amor..

    Aos homens

    provar-lhes-ia como estão equivocados  ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar!

    A uma criança,

    dar-lhe-ia asas,

    mas teria de aprender

    a voar sozinha.

    Aos velhos

    ensinar-lhes-ia

    que a morte não chega com a velhice,

    mas com o esquecimento.

    Aprendi que um homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se...

    Tantas foram as coisas que aprendi com vocês, os homens !

    Aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está em subir a encosta...

    Aprendi que, quando um recém-nascido aperta,

    com a sua pequena mão, pela primeira vez,

    o dedo de seu pai,

    o tem agarrado para sempre.

    São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me irão servir realmente de muito, porque, quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente  

    estarei a morrer...”

    5/20/2007

    AMOR E AMIZADE - William J. Bennett

     
    Perguntei a um sábio a diferença que havia
    entre amor e amizade.
    Ele me disse essa verdade:
    O Amor é mais sensível, a Amizade mais segura.
    O Amor nos dá asas , a Amizade o chão.
    No Amor, há mais carinho; na Amizade, compreensão.
    O Amor é plantado e com carinho cultivado,
    a Amizade vem faceira e, com troca de alegria e tristeza,
    torna-se uma grande e querida companheira.
    Mas quando o Amor é sincero,
    ele vem com um grande amigo;
    e quando a  Amizade é concreta,
    ela é cheia de amor e carinho.
    Quando se tem um amigo ou uma grande paixão,
    ambos sentimentos coexistem dentro do seu coração.
     
                  Abraços a todos!
    5/13/2007

    Carta à Mamãe - Letícia Thompson

      
    Mamãe,  me acontece de me sentir tão pequena! Quero colo, quero abraço, beijo-remédio...

    Ser grande às vezes me custa. Era bem mais fácil não ter problemas. Eu podia brincar na chuva, ser moleca, travessa, despreocupada. Se por acaso eu caísse, você estava sempre presente.

    A gente cresce e tem que aprender a se virar. Falta tempo pra tudo, pro jogo, pro abraço, pra não se preocupar.

    Hoje sou mãe também, mamãe! E só mesmo sendo mãe, aprendi o significado dessa palavra e todas as responsabilidades que ela acarreta.

    Se eu pudesse voltar atrás, te abraçaria mais, te beijaria mais, ficaria um pouco mais no seu colo sem pensar na vida, sem me preocupar ao menos no que vai ter para jantar.

    Mas é a minha vez!... e sou eu quem tento agora curar mágoas pequeninas das minhas crianças com beijos intermináveis, sou eu quem digo "não se preocupe, mamãe vai cuidar."

    Nem sempre sei que direção tomar, ou escolher as palavras exatas para consolar. Mas eu confio no meu coração, como você sempre confiou no seu.

    Obrigada, mamãe, pela vida! Nem sempre eu disse e acho que nunca direi o suficiente para agradecer por todas as vezes que você esteve presente.

    Digo agora e quero dizer sempre: eu amo você!

    5/6/2007

    VALORIZE AS COISAS CERTAS - Fernando Pessoa

    Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá.
    Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra.
    Sonhe com as estrelas, apenas sonhe. Elas só podem brilhar no céu.
    Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
    Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só o seu.
    Quem você ama? Guarde dentro de um porta-jóias, tranque, perca a chave!
    Essa é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.
    Não importa se a estação do ano muda, se o século vira
    Conserve a vontade de viver...
    Sem ela, não se chega à parte alguma...
    Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
    Persiga um sonho, mas não deixe ele viver sozinho.
    Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades, mas não enlouqueça por elas.
    Dá um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.
    Olhe para o lado, alguém precisa de você.
    Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
    Mergulhe de cabeça nos seus desejos e faça tudo para realizá-los.
    Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa procura.
    Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!

    Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se se for preciso... por que não?
    Se achar que precisa voltar, volte!
    Se perceber que precisa seguir, siga!
    Se estiver tudo errado, comece novamente.
    Se estiver tudo certo, continue.
    Se sentir saudades, mate-a.
    Se perder um amor, não se perca!
    Se achá-lo, segure-o!

    Circunda-te de rosas...
    Ama...
    Bebe...
    E cala...
    O mais é nada.
    5/3/2007

    "RESSENTIMENTO E MÁ CONSCIÊNCIA" - J. L. BELAS

    Neste trabalho, o Psicólogo J. L. Belas faz uma relação entre o que vive na prática clínica, e algumas idéias que  Nietzsche defende em relação ao ressentimento e a má consciência, partindo dos conceitos de Deleuze.

    Segundo Belas, os clientes têm dificuldade para se desvencilhar de seus problemas, ou seja, para mudar.

    Um outro aspecto que freqüentemente surge nas entrevistas diz respeito ao ancoramento nos fatos passados, dos quais eles não conseguem se esquecer. Vêem o futuro a partir do  passado, como se já soubessem como o futuro será. Isso os impede de viver a vida como um fluxo imprevisível. 
    Falta, a essas pessoas, flexibilidade. 

    Diz que a doença psi  é  uma  doença  cujo sintoma principal é a rigidez.  “Na maioria dos  chamados “doentes” psi,  a flexibilidade ou é inexistente ou muito pouco presente. Como conseqüência, a criatividade para  solucionar seus problemas quase não existe. Dessa forma, repetem, repetem e repetem comportamentos que são ineficazes para lhes proporcionar uma vida equilibrada e feliz.” 

    Outro aspecto é a questão  da  memória. 
    Há pessoas que vivem seus problemas de forma "enciclopédica". Ou seja, elas "sabem" tudo a seu respeito.  Elas  não  esquecem  de  nada que aconteceu há um minuto, um dia, um mês, um ano, vários anos.  
    São uma super-memória que parece armazenar  todas  as  experiências  vividas, principalmente aquelas que lhes servirão para argumentar sobre suas dificuldades e que possam justificar a limitação em que vivem. 

    Decorre deste ultimo aspecto, a questão que Nietzsche nos traz quando fala sobre o ressentimento e a má consciência, principalmente quando nos deparamos com   pessoas  que são   "cegas"   para   os   fatos   que estão  diante  delas. Não conseguem ver com nitidez. Não  conseguem  sentir  com precisão. Distorcem tudo, ou quase tudo. Não concluem nada pois  o  concluir as colocariam num "vazio" e surgiria daí  uma  tremenda  angústia, uma "falta de chão". 
     
    O RESSENTIMENTO designa  um tipo  em que as forças reativas imperam sobre as ativas:  deixando  de ser agidas.  Por essa razão O HOMEM DO RESSENTIMENTO " RE-AGE ". 

    Nele  a  reação deixa de ser agida para  se  tornar  algo  sentido.  Aí as forças reativas imperam sobre as ativas porque  se furtam à sua ação. 

    O cliente não age,  ele re-age.  Ele sente, ressente, fica preso no que passou . A ele a ação  esta negada. 

    Para Nietzsche a DOENÇA, como tal, constitui uma forma do ressentimento e a força curativa e regeneradora consiste no ESQUECIMENTO: ”Nenhuma  felicidade,  nenhuma  serenidade,  nenhuma esperança, nenhuma  altivez,  nenhum  gozo  do  instante  presente poderiam existir sem faculdade de esquecimento.” 

    O homem ressentido experimenta qualquer ser e qualquer objeto como  uma ofensa  na medida exatamente  proporcional  em  que sofre  o seu efeito. Nele, qualquer que seja a força da  excitação  recebida, qualquer que seja  a  força  total do  próprio  sujeito, servirá somente para investir a marca daquela, de modo que  é  incapaz  de agir, e até de reagir à excitação.  Todo mundo  é objeto de  seu ressentimento. Ele tem uma prodigiosa memória. 

    Portanto: a beleza, a bondade são para ele necessariamente ultrajes tão  consideráveis  como  uma  dor ou  uma  infelicidade experimentadas. 

    Ele não consegue desembaraçar-se de nada,  não  consegue rejeitar seja o que for. Tudo fere. 

    Todos os acontecimentos deixam marcas;  a  recordação  é uma chaga purulenta. 

    O homem do ressentimento é por si mesmo um ser doloroso: a esclerose ou o endurecimento da sua consciência, a rapidez com a qual qualquer excitação se condensa e se congela nele,  o peso das marcas que o invadem,  são outros tantos sofrimentos cruéis. 

    Nele, a memória das marcas é odiosa em si mesma,  por si mesma. 

    A esta memória intestinal e  venenosa,  Nietzsche  chama  a aranha,  a  tarântula,  o  espírito de  VINGANCA. 

    Refere Belas que, em alguns clientes, isso chega a um nível de defesa  tão grande que lhe é difícil até ouvir o que de mais "inofensivo"  se lhe diga. 
    Há sempre uma  sensação  de  estar  sendo  acusado e, imediatamente, começa a direcionar a "culpa para os outros". 

    Nietzsche nos diz que a má consciência se origina quando  os  instintos  que  não desabrocharam, viram-se para o interior:”

    “ É  neste  sentido  que  a  má consciência toma o caminho do ressentimento.” 

    Um outro momento interessante na leitura desse  capítulo foi verificar que , a partir desse conceito de má consciência e de ressentimento, um outro aspecto comum na clínica surge.  Refiro-me aqui às  declarações  de  inúmeros  clientes  que dizem  como é difícil  para eles aceitarem seu sentimento de felicidade. 

    Explica Deleuze: 

    “O ressentimento esconde um ódio sob os auspícios de um amor tentador:” 

    “Separada daquilo que  pode,  a  força  ativa não  se  evapora. Ao  virar-se  contra  si,  PRODUZ  DOR."

    “O sofrimento,   a  doença,  a  indignidade, o dano  voluntário,  a mutilação, as mortificações, o sacrifício de si são procurados  do mesmo modo que um prazer." 

    A  questão   da  dor  é considerada  o  segundo  aspecto  da  má consciência.  Essa questão  nos levará a um outro conceito, rico para a prática clínica,  que é o de sentimento de culpa.  

    Uma  vez  interiorizada,  a  força  ativa  torna se fabricante de DOR.  Ou seja, a dor ganha outro significado:  passa  a ser a conseqüência de um PECADO, de uma CULPA. 
    A única saída para se livrar da culpa e do pecado é fabricar a própria dor. 
    " A dor transformada em sentimento de culpa,  de  temor, de castigo.”  

    Nietzsche se pergunta quem inventou e desejou o  sentido interno da dor ? 
    Ele considera que a figura do sacerdote cristão, segunda figura, pois a primeira, a do sacerdote judeu, foi  responsável pela criação do sentimento de culpa nesse nível que estamos  agora discutindo. 

    Diz Nietzsche : " Foi apenas nas  mãos  do  sacerdote, esse verdadeiro artista para  o  sentimento  de  culpa,  que  este sentimento começou a tomar forma." 
    E  Deleuze  completa: 
    " É  o sacerdote cristão que faz sair a  má  consciência  do  seu  estado  bruto ou animal, é ele quem preside a interiorização  da  dor.”

    " Esse sacerdote muda a direção do ressentimento. 
    Num  primeiro  momento,  como  já vimos,  o  homem  do ressentimento,  sofria,  mas  procurava  uma  causa  para  o  seu sofrimento fora de si, acusando tudo e todos: 
    "Vê esses homens que se dizem bons, eu te digo: são maus."  Diziam os sacerdotes nesse primeiro momento. 

    Num segundo momento o homem reativo precisou encontrar a causa do seu sofrimento dentro de si mesmo. 
    Surge  o  sacerdote dizendo agora: " E verdade, minha ovelha, alguém dever ser a causa do teu sofrer; mas tu próprio és a causa de tudo  isso,  tu  és  a causa de ti próprio."  Nasce aí a noção de PECADO.