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    6/29/2007

    SÃO FRANCISCO - VINÍCIUS DE MORAES

     
    Lá vai São Francisco

    Pelo caminho

    De pé descalço

    Tão pobrezinho

    Dormindo à noite

    Junto ao moinho

    Bebendo a água

    Do ribeirinho.

    Lá vai São Francisco

    De pé no chão

    Levando nada

    No seu surrão

    Dizendo ao vento

    Bom-dia, amigo

    Dizendo ao fogo Saúde, irmão.

    Lá vai São Francisco

    Pelo caminho

    Levando ao colo

    Jesus Cristinho

    Fazendo festa

    No menininho

    Contando histórias

    Pros passarinhos
    .
    6/24/2007

    O MEDO - Carlos Drummond de Andrade

    Em verdade temos medo.
    Nascemos escuro.
    As existências são poucas:
    Carteiro, ditador, soldado.
    Nosso destino, incompleto.

    E fomos educados para o medo.
    Cheiramos flores de medo.
    Vestimos panos de medo.
    De medo, vermelhos rios
    vadeamos.

    Somos apenas uns homens
    e a natureza traiu-nos.
    Há as árvores, as fábricas,
    Doenças galopantes, fomes.

    Refugiamo-nos no amor,
    este célebre sentimento,
    e o amor faltou: chovia,
    ventava, fazia frio em São Paulo.

    Fazia frio em São Paulo...
    Nevava.
    O medo, com sua capa,
    nos dissimula e nos berça.

    Fiquei com medo de ti,
    meu companheiro moreno,
    De nós, de vós: e de tudo.
    Estou com medo da honra.

    Assim nos criam burgueses,
    Nosso caminho: traçado.
    Por que morrer em conjunto?
    E se todos nós vivêssemos?

    Vem, harmonia do medo,
    vem, ó terror das estradas,
    susto na noite, receio
    de águas poluídas. Muletas

    do homem só. Ajudai-nos,
    lentos poderes do láudano.
    Até a canção medrosa
    se parte, se transe e cala-se.

    Faremos casas de medo,
    duros tijolos de medo,
    medrosos caules, repuxos,
    ruas só de medo e calma.

    E com asas de prudência,
    com resplendores covardes,
    atingiremos o cimo
    de nossa cauta subida.

    O medo, com sua física,
    tanto produz: carcereiros,
    edifícios, escritores,
    este poema; outras vidas.

    Tenhamos o maior pavor,
    Os mais velhos compreendem.
    O medo cristalizou-os.
    Estátuas sábias, adeus.

    Adeus: vamos para a frente,
    recuando de olhos acesos.
    Nossos filhos tão felizes...
    Fiéis herdeiros do medo,

    eles povoam a cidade.
    Depois da cidade, o mundo.
    Depois do mundo, as estrelas,
    dançando o baile do medo.

    6/22/2007

    A Saudação da Aurora

    A SAUDAÇÃO DA AURORA

    (Antiga Oração em Sânscrito)

     

     Cuida bem deste Dia,

    porque é o Dia a própria vida da Vida.

    Neste Dia residem todas as Verdades

    e as Realidades de tua Existência:

    - a glória da Beleza;

    - o esplendor da Ação;

    - a benção do Crescimento.

    Cuida bem deste Dia!

    Pois ontem é apenas um Sonho

    E Amanhã apenas uma Visão

    Mas cada Hoje bem vivido

    Torna cada Ontem um Sonho de Felicidade

    E cada Amanhã uma Visão de Esperança

    Cuida bem, pois deste Dia.  

    6/9/2007

    Anjo de Avental Azul

     

    - Os anjos existem mesmo? Eu nunca vi nenhum, perguntou o menino à mãe. 

    Como ela lhe afirmasse a existência deles, o pequeno disse que iria andar pelas estradas, até encontrar um anjo.

    - É uma boa idéia, falou a mãe. Irei com você.

    Mas você anda muito devagar, argumentou o garoto. Você tem um pé aleijado.

    A mãe insistiu que o acompanharia. Afinal, ela podia andar muito mais depressa do que ele pensava.

    Lá se foram. O menino saltitando e correndo e a mãe mancando, seguindo atrás.

    De repente, uma carruagem apareceu na estrada. Majestosa, puxada por lindos cavalos brancos. Dentro dela, uma dama linda, envolta em veludos e sedas, com plumas brancas nos cabelos escuros. As jóias eram tão brilhantes que pareciam pequenos sóis.

    Ele correu ao lado da carruagem e perguntou à senhora:

    - Você é um anjo?

    Ela nem respondeu. Resmungou alguma coisa ao cocheiro que chicoteou os cavalos e a carruagem sumiu na poeira da estrada.

    Os olhos e a boca do menino ficaram cheios de poeira. Ele esfregou os olhos e tossiu bastante. Então, chegou sua mãe que limpou toda a poeira, com seu avental de algodão azul.

    - Ela não era um anjo, não é, mamãe?

    - Com certeza, não. Mas um dia poderá se tornar um, respondeu a mãe.

    Mais adiante uma jovem belíssima, em um vestido branco, encontrou o menino. Seus olhos eram estrelas azuis e ele lhe perguntou:

    - Você é um anjo?

    Ela ergueu o pequeno em seus braços e falou feliz:

    - Uma pessoa me disse ontem à noite que eu era um anjo.

    Enquanto acariciava o menino e o beijava, ela viu seu namorado chegando. Mais do que depressa, colocou o garoto no chão. Tudo foi tão rápido que ele não conseguiu se firmar bem nos pés e caiu.

    - Olhe como você sujou meu vestido branco, seu monstrinho! Disse ela, enquanto corria ao encontro do seu amado.

    O menino ficou no chão, chorando, até que chegou sua mãe e lhe enxugou as lágrimas com seu avental de algodão azul.

    Aquela moça, certamente, não era um anjo.

    O garoto abraçou o pescoço da mãe e disse estar cansado.

     - Você me carrega?

    - É claro, disse a mãe. Foi para isso que eu vim

    Com o precioso fardo nos braços, a mãe foi mancando pelo caminho, cantando a música que ele mais gostava.

    Então o menino a abraçou com força e lhe perguntou:

    - Mãe, você não é um anjo?

    A mãe sorriu e falou mansinho:

    - Imagine, nenhum anjo usaria um avental de algodão azul como o meu !